O tradicional concurso Deusa do Ébano chega à sua 45ª edição neste sábado (17), reafirmando o papel histórico de fortalecimento da identidade e da autoestima de mulheres negras em Salvador. Produzido pelo bloco afro Ilê Aiyê, o evento integra a Noite da Beleza Negra e acontece na Senzala do Barro Preto, no bairro do Curuzu, berço do movimento cultural do grupo.
Desde sua criação, em 1975, o concurso se consolidou como um espaço de ressignificação da beleza negra, rompendo com padrões estéticos eurocêntricos e criando uma rede de acolhimento, afeto e afirmação identitária. Ao longo das décadas, a iniciativa impactou gerações de mulheres, muitas delas vivenciando, pela primeira vez, um ambiente de reconhecimento e valorização de suas histórias e origens.
Presente desde as primeiras edições, a estilista Dete Lima, responsável por vestir as candidatas há quase cinco décadas, destaca o caráter transformador do concurso. Para ela, cada participante carrega não apenas o próprio sonho, mas também o de mães, avós e de toda uma ancestralidade, tornando o momento carregado de emoção e significado.
Com o passar dos anos, o concurso passou por mudanças estruturais. Desde 2004, as finalistas participam de uma imersão na véspera do evento, conhecida como “dia de princesa”, quando permanecem juntas em um hotel até o momento da escolha da vencedora. Segundo a coordenação, esse processo fortalece o senso de coletividade e o autorreconhecimento das participantes como mulheres negras.
A atual Deusa do Ébano, Lorena Xavier, destaca a força da ancestralidade e do legado deixado por lideranças históricas do Ilê Aiyê como fundamentais para a continuidade do concurso. Para ela, a experiência vai além do título e se reflete em crescimento pessoal, artístico e profissional.
Nos últimos anos, a organização também passou a dar atenção especial à saúde mental das candidatas. Diante do aumento de casos de ansiedade e crises emocionais, o concurso passou a contar com acompanhamento psicológico, oferecendo suporte contínuo às participantes. Além disso, as finalistas têm acesso a oficinas de dança afro, presença digital e cuidado emocional, ampliando as oportunidades mesmo após o encerramento da competição.
Reconhecido como um dos mais importantes eventos culturais de Salvador, o Deusa do Ébano mantém sua relevância ao unir tradição, responsabilidade social e compromisso com a valorização da mulher negra. Para quem participa, o título não se encerra com a coroação: como diz o lema da comunidade, “uma vez deusa, para sempre deusa”.

Lorena Bispo- Por M.I


