O que deveria ser um esforço para restaurar a visão de centenas de pessoas tornou-se um drama médico no interior da Bahia. Um mutirão de cirurgias de catarata realizado em uma clínica particular no município de Irecê resultou em complicações severas. Pelo menos 10 pacientes ficaram cegos após os procedimentos realizados.
Detalhes do evento
O evento, que ocorreu entre os dias 28 de fevereiro e 1º de março deste ano, no Centro de Especialidades Odonto – Médicas (CEOM), somou um total de 643 procedimentos em apenas 48 horas. A escala da operação e a rapidez das intervenções agora estão em análise após a ocorrência de intercorrências em série.
Relatos dos pacientes afetados
O cenário entre os pacientes atendidos é de angústia e desamparo. Relatos de dores persistentes e o temor de sequelas irreversíveis dominam o cotidiano de quem buscou o procedimento. A Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão na clínica, na última segunda-feira, 6. Diante da gravidade do quadro, muitos pacientes estão recorrendo a especialistas particulares e buscando atendimento em outras cidades, arcando com custos e deslocamentos por conta própria. A Secretaria Estadual de Saúde (Sesab) realizou uma inspeção no estabelecimento e constatou que medicamentos utilizados nos procedimentos eram armazenados de forma irregular.
Assistência pós-operatória criticada
A rede de apoio prometida pela clínica responsável tornou-se o principal alvo de críticas. As vítimas afirmam que o suporte oferecido é insuficiente e desconectado da urgência que os casos exigem. O que deveria ser um acompanhamento pós-operatório rigoroso tem sido descrito como uma assistência falha. A crise aumentou a pressão sobre as autoridades sanitárias e o sistema judiciário. Setores da sociedade civil e associações de pacientes exigem uma postura mais enérgica do Ministério Público, argumentando que o formato desses mutirões — caracterizado pelo alto volume de procedimentos em espaços de tempo reduzidos — ignora protocolos de segurança essenciais.
Posicionamento da clínica
Em nota oficial assinada pelo diretor Marciel Dourado Franca, a clínica CEOM confirmou as “intercorrências”, mas especificou que estas ocorreram após procedimentos de terapia antiangiogênica (injeções intravítreas usadas frequentemente para tratar problemas na retina). Os números divulgados pela instituição indicam: 643 total de procedimentos realizados no período; 24 pacientes que apresentaram complicações imediatas; 18 pacientes que já receberam alta, embora ainda apresentem baixa acuidade visual. “Todos os casos foram detectados dentro do protocolo de monitoramento clínico da equipe e as medidas assistenciais foram adotadas de forma imediata”, afirma o comunicado da clínica. A CEOM declarou que está oferecendo suporte total aos afetados, incluindo avaliação por retinólogos especialistas, novos exames complementares e suporte financeiro para as condutas terapêuticas necessárias. De acordo com a unidade, a baixa visão relatada pelos pacientes que receberam alta é considerada um quadro “esperado diante da resposta inflamatória”.



